Klaus Kleber

A decisão do governo de fazer uma intervenção federal o Estado do Rio de Janeiro, abandonando o barco da reforma da reforma da Previdência, não é mais do que a confissão de que não conseguirá fazer muita coisa para reforçar o seu chamado “legado”. Mas, em um jogo de cena, o governo anunciou 15 medidas “prioritárias” que espera ser aprovadas nos próximos meses e que requerem apenas maioria simples para passar no Congresso.

Nesse “pacotão” de um governo cada dia mais fraco, há de tudo, desde a regulamentação da duplicata eletrônica, cadastro positivo, autonomia do Banco Central, até a desoneração da folha, acabando com privilégios de certos setores, teto salarial para o funcionalismo, acabando com penduricalhos, privatização da Eletrobrás, etc.

Alguma coisa pode sair daí, mas já está claro que mexer com os salários dos servidores não passa, e isso não só por causa das resistências do Poder Judiciário quanto ao corte do auxílio residência para os magistrados e procuradores que se apegam a essa mamata mesmo já tendo casas ou apartamentos para morar e alguns para alugar a terceiros.

Para o Congresso, iss é uma boa desculpa, mas não é exatamente por isso que os deputados e senadores não se dispõem a votar nada que possa reduzir salários de seus apaniguados no Poder Executivo. Calcula-se que o número de funcionários federais que ocupam cargos de confiança ou comissionados, como se diz na linguagem burocrática, seja da ordem de 100 mil. Nessa multidão, que inclui alguns milhares de não concursados, estão por indicados por parlamentares que votam a favor do governo.

Se quisesse mesmo reduzir despesas e dar credibilidade  ao projeto em exame pelo Congresso, o governo poderia simplesmente reduzir drasticamente o número de comissionados, o que não fez e não fará, sem reação de já sua tênue base parlamentar.

E a oposição das bancadas do Norte te do Nordeste à privatização da Eletrobrás se dá pelo mesmo motivo. Se as distribuidoras e geradoras de energia da Eletrobrás e suas subsidiárias forem privatizadas, lá se vão outras centenas de indicações políticas.

Enquanto isso, o governo vai tapeando e há quem fique discutindo se o Banco Central (BC), se passar a ter autonomia, deve ter ou não ter dois objetivos: controlar a inflação e dar condições para o crescimento econômico, tal como o Federal Reserve Board (Fed) dos EUA.  Copiar os EUA quanto a isso seria um erro no Brasil, dizem economistas mais ortodoxos. Mas não seria má ideia, segundo os mesmos analistas, se o Brasil copiasse o Fed dando à diretoria do BC nacional um mandato de quatro anos não coincidentes com o do presidente da República.

Ora, com isso, se abriria a possibilidade de visões não coincidentes de política econômica entre o ministro da Fazenda de um determinado governo, nomeado pelo presidente em exercício, e a direção do BC. Toda as vezes em que houve desentendimento entre a Fazenda e o BC deu zebra. E não há nada de “prioritário” nesse projeto, que poderia, merecidamente, dormir na gaveta.

Klaus Kleber

O anúncio de que o presidente Donald Trump vai taxar em 25% o aço importado pelos EUA. atingindo fortemente as exportações brasileiras do produto, coloca em difícil situação aqueles que argumentam em favor de uma redução do protecionismo no Brasil.

Ainda há pouco, com a decisão da Camex de rejeitar, pelo menos por um ano, o pedido das siderúrgicas nacionais de imposição de tarifas sobre o aço importado pelo País, o  governo mostrou disposição de resistir às pressões protecionistas internas. A meu ver, as autoridades agiram certo nesse caso. Mas, e agora?

São fortes os protestos na União Europeia (UE) contra a ofensiva protecionistas de Trump, que inclui também o alumínio. Os europeus podem optar por uma retaliação contra os produtos americanos, que poderiam também ser sobretaxados.

O governo brasileiro não parece disposto a entrar nessa, procurando convencer Washington de que exportamos semi-acabados de aço, não produto final, o que significa que a elevação de tarifas pelos EUA poderia representar aumento de custos para as empresas americanas que processam o produto. E isso acabaria se refletindo nos preços ao consumidor em uma fase em que a inflação americana começa a mostrar sua carinha feia.

O argumento é bom, mas dificilmente ele será aceito. Trump não falou em excluir da medida os seus parceiros no Acordo de Livre Comércio da América do Norte (NAFTA) e se não vai abrir exceção para o Canadá e o México, ao que tudo indica, por que o faria com relação ao Brasil?

Pela visão mercantilista de Trump, o Brasil não faria jus, pois também é superavitário em suas relações comerciais com os EUA, embora o saldo positivo tenha sido pouco significativo em 2017 (US$ 2,1 bilhões).

Do ponto de vista de uma política industrial, há outra forma de ver a questão. O Brasil adota uma política excessivamente protecionista, que muitas vezes atrapalha, se não impede, a integração com os fluxos internacionais de produção.

Aumentar mais as tarifas alfandegárias, além de constituir um sério obstáculo para a conclusão de acordos internacionais de comércio pelo Brasil, afeta a atração de novos investimentos e deixa a indústria nacional ainda mais defasada.

Não são poucos os que defendem uma saída pelo câmbio. O fato é que, graças à entrada de dólares carreados pela importação de produtos agrícolas e matérias primas, o real está sobrevalorizado, já havendo quem fale que o País já sofre da chamada “doença holandesa”.

O problema é que o Banco Central (BC) só admite intervir no câmbio por meio dos “swaps” cambiais, quando as cotações do dólar se elevam acima de determinado patamar. Nessas ocasiões, é facilmente esquecido o compromisso da política econômica com o câmbio flutuante.

Nunca foi feita uma intervenção no mercado de câmbio para puxar a cotação do dólar para cima para facilitar a exportação de manufaturados e evitar danos causados por medidas como as anunciadas por Trump. Tudo mudaria de figura se, por exemplo, o semi-acabado de aço, hoje exportado a uma taxa de câmbio de R$ 3,24, estivesse sendo vendido no mercado internacional a uma taxa de R$ 3,40 por dólar.

Alterar a política é atualmente é inviável. Contudo, uma desvalorização do real pode ocorrer mais adiante. Com o crescimento mais acelerado da economia dos EUA. o dólar se tornará mais forte, acarretando mais inflação.

O Federal Reserve Board (Fed), como já se prevê, deve subir a sua taxa básica de juros mais rapidamente do que se imaginava, e isso pode reduzir o fluxo de aplicações financeiras externas para os emergentes, como o Brasil, com consequente desvalorização do real.

A grande dúvida é e isso pode ocorrer a tempo e com intensidade suficiente para salvar do colapso as exportações brasileiras de aço e outros produtos manufaturados.

 

Claudia Bozzo

“Não existe estranheza que se possa imaginar que seja mais estranha do que a vida de pessoas aparentemente convencionais na intimidade”.

A frase, dita por Daniel Day-Lewis a respeito de “Trama Fantástica” parece meio enigmática. Mas para quem assistiu – ou vai assistir – ao filme dirigido por Paul Thomas Anderson, ela cai sobre o enredo com a perfeição das roupas criadas pelo estilista que ele interpreta, o enigmático, exigente e perfeccionista Reynolds Woodcock.

Não fosse a presença avassaladora do Churchill interpretado por Gary Oldman em “O Destino de uma Nação”, Day-Lewis não seria páreo para ninguém no Oscar, deste domingo à noite, por este belíssimo e estranho filme, que se passa em Londres na década de 1950 e é inspirado no basco Cristóbal Balenciaga, um dos ícones da alta costura, que vestiu mulheres como Audrey Hepburn e Jacqueline Kennedy, entre outras elegâncias consagradas.

Day-Lewis não confirma explicitamente, mas já é de domínio público que após esse filme, o inglês nascido em 1957 vai se aposentar. Sem dúvida, deixa um legado e tanto, desde que começou no cinema, em 1971, vindo a explodir como astro após “Minha Adorável Lavanderia”, de 1985, dirigido por Stephen Frears. Cada pessoa tem seu filme favorito de Day-Lewis, embora seja difícil escolher entre “A Insustentável Leveza do Ser” (1988), “Meu Pé Esquerdo” (1989), “Em Nome do Pai” (1993), “Sangue Negro (2007), “Lincoln” (2012) e tantos outros.

“Trama Fantasma” veio dos anos de colaboração criativa com Anderson. O ator é conhecido por sua imersão completa em um personagem antes do início das filmagens (construiu canoas enquanto se preparava para “O Último dos Moicanos”, 1992). Para compor o estilista de “Trama”, foi aprendiz durante quase um ano, de Marc Happel, diretor de figurino do New York City Ballet, para transformar-se em Reynolds – um fanático por controle com um zelo perfeccionista pela costura. Estudou desenho, costura manual e drapejamento, chegando a pregar 100 botões e refazendo um vestido tubinho de Balenciaga a partir do zero.

No filme, ele contracena com a britânica Lesley Manville, que aparece como a imperiosa irmã e gerente de negócios do estilista Reynolds, Cyril; e com a atriz luxemburguesa Vicky Krieps, que interpreta Alma, a obstinada musa do estilista. A história rondou o dia a dia de Paul Thomas Anderson durante cerca de três anos, e definiu-se quando ele comprou num aeroporto uma biografia de Balenciaga e seu personagem principal moldou-se no mestre do estilo cuja rotina monástica foi interrompida por um novo amor.

O relacionamento entre os três é mostrado em detalhes sutis, na economia de diálogos e jogos de olhares, ações e detalhes. Mostra também o amadurecimento de um diretor dono de impressionante currículo e que expande sua atuação a campos tão diferentes quanto o surgimento da indústria do pornô em cinemas dos EUA (“Boogie Nights, Prazer sem Limites”, 1997), estranhos relacionamentos (“Magnólia”, 1999) e os primeiros tempos da indústria do petróleo (“Sangue Negro”, 2007)

Day-Lewis está impecável. Como sempre. Elegante, contido, com toda a força de sua presença, revelando como as pessoas podem ser governadas por desejos que parecem alheios mesmo para si mesmos.

Sobre seu trabalho como ator, ele contou em uma entrevista ao The News York Times que já explorou “muitos mundos diferentes, e o que eles têm em comum é que sempre foram inteiramente misteriosos para mim no começo”, disse ele. Isso é “provavelmente uma grande parte do fascínio – descobrir algo que parece estar fora do alcance, às vezes impossivelmente além do alcance, que o empurra para a frente até entrar em sua órbita de alguma forma”.

E como o grande ator que é, ele transporta essa experiência conquistada para nossas telas, levando-nos a esses mundos diferentes, numa imersão de alto teor dramático.

Balenciaga, o estilista que inspirou Anderson, nasceu em San Sebastian em 1851. Montou sua Maison na Espanha, mas por causa da Guerra Civil foi obrigado a mudar-se para Paris em 1937. Foi um sucesso, na meca da moda e faleceu em 1972, depois de inspirar e dar aulas de moda a Oscar de La Renta, Emanuel Ungaro, André Courrèges e Hubert de Givenchy.

Klaus Kleber

Enquanto esperávamos o elevador, um vizinho me perguntava se eu acreditava na candidatura de Michel Temer à reeleição. Disse ele que era difícil mesmo acreditar por motivos óbvios: a baixíssima popularidade do presidente, os ressentimentos que leva muita gente ainda a gritar “Fora Temer” e sua idade (ele completa 78 anos em setembro). Mas, a seu favor, ponderou meu vizinho, o presidente tem a máquina do governo.

A intervenção no Rio pode ter um efeito demonstração do que o governo federal pode fazer, se quiser, mas o uso da máquina tem limitações. O presidente tem uma poderosa caneta, mas por iniciativa do seu próprio governo, foi imposto um teto nos gastos públicos e está previsto este ano um déficit primário da União não superior a R$ 159 bilhões. Qual a mágica que vão fazer para vencer esse obstáculo?

Fim da conversa de elevador. Na realidade, o fato político mais saliente depois do Carnaval não foi confirmação do ministro Henrique Meirelles de que está disposto a sair candidato à Presidência.  Isso já era esperado e o nome de Meirelles já figurava como opção nas pesquisas de opinião. O que assustou todo mundo, inclusive o MDB, foi a desenvoltura dos auxiliares mais próximos do Palácio do Planalto em passar a defender a reeleição de Temer, logo depois de anunciada a intervenção federal na área de segurança no Rio, jogando para escanteio a reforma da Previdência.

Se a intervenção tiver sucesso, o que é muito duvidoso, esse seria um mais trunfo para o atual presidente pleitear sua permanência no posto. Ele tem outras cartas na manga: em seu governo, a inflação baixou para 2,95% em 2017 deve permanecer baixa em 20018, a taxa básica de juros caiu para 6,75%, o desemprego começa a baixar e se prevê que a o PIB pode crescer até 3,5% este ano.

Certo, a reforma da Previdência falhou, mas isso prejudicaria mais a candidatura de Meirelles do que a do próprio residente do Jaburu, que fez o que pôde e pode voltar à carga, se reeleito.

E, quanto ao uso da máquina, já se fala que, com a demissão até o início da abril, daqueles ministros que serão candidatos nas eleições de outubro, os cargos vagos serão ocupados por gente de absoluta confiança da copa e da cozinha do Planalto.

Outro fator é “aridez”, para usar o termo do editorial da Folha de S. Paulo de domingo (25/2) no terreno intermediário entre Jair Bolsonaro e ex-presidente Lula. Com a impossibilidade de Lula sair candidato e com a desistência de Luciano Huck, esse espaço deveria ser ocupado pelo governador Geraldo Alckmin, prejudicado por um “crônico déficit de carisma”. Há outros disputantes no campo liberal-conversador, como Rodrigo Maia e Meirelles, mas, com a fragmentação no campo “liberal-conservador”, Temer, se for realmente candidato, teria condições e ir ao segundo turno, cabendo aos marqueteiros lhe dar uma aparência algo carismática.

Todo esse raciocínio é de um lado só e não leva em conta a possibilidade de uma candidatura de esquerda, que pode vir aí, a depender da retirada oficial de Lula. As conversações entre Fernando Haddad e Ciro Gomes, se prosperarem, podem dar mudar radicalmente o quadro eleitoral e, quem sabe, unir o campo dito liberal.

Enquanto permanece esse nevoeiro a Bolsa sobe e a cotação do dólar cai.

Klaus Kleber
Foram muito significativas as declarações do presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia, a propósito da intervenção federal no Estado do Rio de Janeiro na área de segurança. Perguntado de onde viriam os recursos, Maia disse que, passando a segurança no Estado a ficar sob o comando das Forças Armadas e, portanto, da União, os recursos necessários para um combate efetivo à criminalidade que assola o Estado deveriam provir do governo central.

Isso significa que todas as despesas acarretadas para dotar a polícia fluminense de um sistema adequado de planejamento, de um serviço efetivo de inteligência, além de armamentos, reequipamento de veículos, etc. devem ser cobertos por verbas do governo federal.

É interessante lembrar que o governador Luiz Fernando Pezão, antes de ser obrigado a aceitar a intervenção federal, pleiteava junto ao governo federal mais recursos para que pudesse colocar em prática uma campanha para contra-atacar a ofensiva da crime organizado no Estado.

Não se sabe quem soprou no ouvido do presidente Michel Temer que muito melhor politicamente que dar mais dinheiro para o governo do Rio, deixando de ter controle sobre sua aplicação, seria decretar logo intervenção federal na área de segurança no Estado.

O secretário-geral da Presidência, Moreira Franco, já foi governador do Rio, e Rodrigo Maia, tem no Estado a sua base eleitoral, e os dois só poderiam ser a favor. Pezão é agora um dois de paus, mas, de qualquer forma, a sua carreira política está no fim, o que, infelizmente, não se pode dizer ainda do prefeito do Rio, Marcelo Crivella.

Há especulações de todo tipo sobre como ficam as pretensões políticas de um ou de outro pré-candidato à Presidência diante do novo quadro. O que muita gente – inclusive gente dentro do governo – quer saber é como fica o pretendido controle dos gastos públicos, com o abandono da reforma da Previdência e nova ênfase do governo no combate à violência.

Além do custo da intervenção, vamos ter um Ministério da Segurança Pública. Mais uma pasta – e que pasta –, que não poderá subsistir sem mais dotações, além do redirecionamento daquelas destinadas ao esvaziado Ministério da Justiça.

Não é uma simples troca de nome ou de status. Sobre isso o general Carlos Alberto dos Santos Cruz, atual secretário acional de Segurança Pública foi bastante explícito. “Se você fizer uma mudança dessas e for para melhorar, é ótimo. Agora, se você fizer a modificação e se não houver melhora visível, seja na parte orçamentária, na parte de padronização, na parte tecnológica, aí fica discutível”.

O general discorreu sobre a situação de todo o País. Os crimes no Rio são mais vistosos, aparecem mais na TV, mas outros Estados têm problemas locais até mais sérios, com penitenciárias em situação lastimável, e é bom lembrar que bandidos operando na Rocinha podem estar obedecendo ordens emanadas de penitenciárias a centenas de quilômetros de distância. Para nosso desconforto, as facções criminosas conseguiram também unidade nacional.

Quanto a intervenção federal na segurança no Rio e criação do Ministério da Segurança Pública vão custar, ninguém sabe dizer. Dada a situação fiscal, logo, logo, o governo vai começar falando em criação de novos impostos ou aumento das alíquotas dos existentes. Que tal a volta da CPMF?

Claudia Bozzo
É na Netflix, de novo, que o melhor encontrou sua casa. Trata-se da extraordinária série “Peaky Blinders”, originalmente apresentada pela BBC. São cinco temporadas, quatro delas já disponíveis no serviço de streaming, divididas em seis episódios cada uma, trazendo um elenco de primeiríssima linha, que tem como protagonista o ótimo Cillian Murphy (como é irlandês, seu nome se pronuncia ‘Quilian’), que todo mundo já viu em algum filme. Ele está em “Dunkirk” (2017), “Café da Manhã em Plutão”, de Neil Jordan (2005), “Ventos da Liberdade” de Ken Loach (2006), em vários blockbusters ou em outros filmes de fino trato. Nesta série seu desempenho é impecável, marcante e traça para ele um caminho irreversível de grande sucesso.

O centro de tudo em “Peaky Blinders”, uma história real sobre uma família de gângsters que controlava corridas de cavalo na rica Birminghan, a segunda maior cidade do Reino Unido é Thomas Shelby (Cillian), o grande articulador dos “negócios da família”. Ele tem como principais colaboradores os três irmãos, com destaque para Arthur (Paul Anderson), figura instável, mas de uma fidelidade e lealdade comoventes.

Embora centrada em Birminghan, a série precisou ser rodada em cidades como Manchester, por exemplo, pois a reurbanização acabou com as áreas mais pobres da cidade.

Conta a história da Inglaterra no sensível período após o final da primeira guerra, e foi criada por Steven Knight, roteirista que deixou sua marca em “Coisa Belas e Sujas” (2002) e na série “Taboo” (2017), estrelada por Tom Hardy. Escreveu cada um dos capítulos apresentados. Knight cresceu em Birmingham e lembra-se do que seus parentes contavam a respeito da quadrilha. Seu pai tinha uns dez anos na época. O nome “Peaky Blinders” vem das lâminas que eles usavam em seus bonés, e em brigas eram usadas para cegar os oponentes com o sangue jorrado da testa deles.

O elenco inclui Sam Neill como o policial especialmente enviado pelo então secretário do Interior, Winston Churchill, para dar um fim à criminalidade na região e investigar as ligações entre o crime organizado, o IRA e movimentos sindicais. Mas tem mais: a ótima Helen McCrory como a tia Polly, Tom Hardy, Paddy Considine, Adrien Brody, Aidan Gilen, Sophie Rundle.

É uma superprodução, e segundo alguns sites, cada episódio custou em média um milhão de libras. Bem gastas, pois o padrão BBC esbanja bom gosto e competência. A direção de arte é impecável, a reconstituição da época um exagero de bem-feita e a trilha sonora… um caso à parte. Embora o período seja o início do século vinte, o talento britânico encaixa perfeitamente por exemplo, Nick Cave & The Band Seeds, que estão na trilha de abertura, com “Red Hand”. Há Radiohead, PJ Harvey e Royal Blood. Consegue-se identificar outros monstros sagrados, entre eles David Bowie, em uma canção de seu último álbum: o episódio foi gravado logo após a morte do compositor. “Look up here, I’m in Heaven…”

A série tem uma aprovação de 96% (entre leitores e críticos) no site Rotten Tomatoes, cujo “tomatômetro” revela 100% de aprovação para as temporadas 2 e 3, marca bem difícil de ser alcançada. Já está sendo comparada às melhores de todos os tempos, como “The Wire”, “Sopranos” e “Boardwalk Empire”.

Seu ponto forte é a história. Com H maiúsculo. O formato de série permite o aprofundamento de vários temas, entre eles a ascensão das mulheres, a luta por igualdade salarial, a rigidez das estruturas sociais na sociedade britânica, uma vez que por mais ricos e por mais que “diversifiquem” seus negócios e áreas de atuação, os “Peaky Blinders” sempre serão considerados um bando de ciganos pela elite. Mesmo que comecem a lavar seu dinheiro e criar negócios “limpos”.

Em uma entrevista, Knight já adiantou que a última temporada termina com “sirenes anunciando o primeiro ataque aéreo da Segunda Guerra”. Bom, Netflix, que tal legendar e trazer para nossas telas essa preciosidade que tantos outros países já viram? E gostaram.

Claudia Bozzo
Em mãos competentes, as câmeras cinematográficas podem abrigar, ao mesmo tempo, poesia e emoção, o momento, o passado e o futuro. É o que acontece com o mágico e belíssimo filme “Visages Vilages” (2017) de Agnés Varda, uma das mais importantes cineastas do mundo, que caminha para os noventa anos, em maio, e do fotógrafo JR.

O documentário levanta a questão várias vezes: onde foi que essas duas figuras, que 55 anos de idade separam, vieram a se encontrar? Não foi numa beira de estrada em busca de carona, nem numa padaria ou parada de ônibus. Nem num site de encontros.

O certo é que a parceria é perfeita. Os dois compartilham uma visão poética, estética, terna e emotiva pela França (país que a belga Varda adotou, e onde mora no 14eme., em Paris, tendo sido casada durante muitos anos com o cineasta Jacques Demy, falecido aos 59 anos, em 1990). Varda e JR enxergam o mundo pelas mesmas lentes, embora para Varda o foco, com a idade e uma condição clínica complicada, seja menos preciso.

O documentário concorre ao Oscar como melhor documentário de longa-metragem, e seu efeito é mágico. A leveza vem da facilidade de diálogo e convivência entre ela e o fotógrafo, ambos com um inteligente e rápido senso de humor.

É um mergulho no cotidiano das pessoas que vivem nos vilarejos do interior da França, levando o registro de seus personagens e integrando-os à paisagem. JR tem uma caminhonete que, além de fotografar as pessoas, imprime imagens no tamanho que ele quiser. São os os retratos que vão adornar o habitat daqueles cidadãos. A garçonete, o carteiro, as mulheres dos estivadores, os funcionários de uma fábrica, a moradora de uma antiga vila de mineiros que resiste à mudança, embora os vizinhos tenham ido embora. Ou a foto de um fazendeiro no galpão de sua propriedade.

Nem um enorme bloco de concreto jogado em uma praia da Normandia, rejeito ainda da segunda guerra, escapa de tornar-se personagem.

Mas o filme não é feito só de impactantes soluções estéticas. Há as histórias dos cidadãos, o respeito pelo passado e pelo ambiente, o amor à terra natal. Eles resgatam a foto de antepassados e a enquadram em uma moldura, antes de colar em uma parede. Todas as superfícies, ásperas, lisas ou deterioradas, dialogam com as fotos. Seja pelo local onde estão, como uma caixa d’água com peixes colados, a um vagão de trem com os olhos e os pés de Varda ou os contêiners com a foto das esposas de estivadores.

Uma arte efêmera, pois trata-se de papel, colado em superfícies ao ar livre. Mas multiplicada pela era digital, pois torna-se o tema de inúmeros selfies. Como comenta o dono do bar onde trabalha a garçonete, retratada descalça, com uma sombrinha: “ela chegou há pouco tempo, e agora é a pessoa mais famosa da cidade”. Entre seus fotógrafos, os dois filhos, buscando o melhor ângulo para um selfie.

Varda, personagem das mais importantes aa Nouvelle Vague, a onda que mudou o modo de fazer cinema no mundo, menciona várias vezes o cineasta Jean-Luc Godard, comparando à JR, pois como o cineasta mais amado e mais odiado em todos os tempos, JR também não se separa dos óculos escuros. Ela quer o tempo todo, que JR tire seus óculos. E há uma cena de Goddard sem os seus, com lágrimas nos olhos, que Varda filmou e reproduz no documentário.

A viagem de ambos pela França inclui uma visita ao túmulo de outro ícone da cultura francesa, o fotógrafo Henri Cartier-Bresson, em um pequeno cemitério com apenas 14 tumbas, no pé dos alpes.

O gato de Varda é personagem do documentário, às vezes nos ombros dela, ou deitado na estante ao lado da janela. Na semana passada, impossibilitada de ir a Hollywood para um almoço de candidatos ao Oscar, ela mandou fotos suas, em tamanho natural, que JR levou para ficar ao seu lado e uma delas, ao lado do diretor de “A Forma da Água”, Guillermo del Toro, tem Varda e seu gato.

Que não reste a menor dúvida: esse é um filme para quem quer sair feliz do cinema. Duvida? Pois veja o trailer, no YouTube, ou qualquer outro lugar. E não é o tipo de filme que se pode sentar no sofá e esperar que ele chegue pelo Netflix, ou pela TV a cabo. É na telona que ele está em seu ambiente e passa melhor toda a emoção da arte no cinema. Pura magia.

Turbilhão de dólares

04 / 02 / 18

Klaus Kleber
Há quem já preveja que a redução dos impostos para as empresas e para os mais ricos nos EUA, a única vitória importante do presidente Donald Trump até agora, vai prejudicar o Brasil, carreando menos dólares para cá. Isso sem falar no recrudescimento do protecionismo, outra marca do controverso ocupante da Casa Branca.

Isso pode ocorrer em algum ponto no futuro, mas até onde se pode prever, esta é uma perspectiva remota. Como foi noticiado, a captação de empresas brasileiras no mercado internacional em janeiro não foi impactada pelo rebaixamento da nota do País pela Standard & Poor’s (S&P), ensaiado também por outras agências ede classificação de risco.

Até 29 de janeiro, essa captação já tinha chegado a US$ 7,155 bilhões. É verdade que houve o lançamento de US$ 2 bilhões de bônus pela Petrobrás, em condições muito favoráveis. Mas algumas empresas privadas estrearam no mercado externo com sucesso, como a Natura e a Hidrovias do Brasil.

Além disso, o saldo da balança comercial em janeiro (US$ 2,76 bilhões) foi muito bom, com um avanço de 13,8% das exportações em comparação com o mesmo mês de 2017, somando US$ 16,96 bilhões). Essa performance mostra que o ciclo de alta das commodities ainda está em curso. As importações estão reagindo, tendo tido um crescimento de 16,4%, chegando a US$ 14,19 bilhões, mas isso está longe de comprometer o saldo comercial.

A continuar nessa marcha, é possível que o País venha ter um novo superávit comercial recorde em 2018. O Banco Central prevê um saldo de US$ 59 bilhões, mas, como ocorreu em 2017, isso pode ser uma subestimativa.

A grande preocupação é com investimentos estrangeiros diretos (IED). Trump quer que as multinacionais com sede nos EUA abram mais fábricas ou laboratórios no território americano, aproveitando a redução da carga tributária. Acontece que, no Brasil, os maiores investimentos estrangeiros têm vindo da China e, em casos específicos, como do petróleo, da Noruega e outros países.

E não deixa de ser duvidoso que companhias americanas, há décadas instaladas no País, venham a ceder espaço para concorrentes, deixando de investir aqui. De qualquer forma, se as privatizações forem em frente, a entrada de IED pode superar US$ 80 bilhões este ano, que a projeção do do BC.

Em suma o turbilhão de dólares não deve encolher tão cedo, apesar de este ser um ano eleitoral. Bem a propósito, as reservas internacionais do Brasil continuam subindo e entraram fevereiro na marca de US$ 383,47 bilhões.

Klaus Kleber
Com a condenação do ex-presidente Lula pelo Tribunal Regional Federal da 4ª. Região (TRF-4) no último dia 24, pode-dizer que se encerra um ciclo histórico iniciado com a promulgação da Constituição de 1988. A rigor, o ciclo de 30 anos chegaria ao fim em outubro, mês em que foi promulgada a Carta Magna, mas o virtual afastamento de Lula do pleito presidencial deste ano é um dos acontecimentos mais marcantes deste período.

Caberá aos historiadores analisar a ascensão e queda de Lula e do PT, depois da maior recessão de nossa história. Os que escreverem sobre esses tempos bicudos, não deixarão de salientar também a exacerbação das atribuições do Poder Judiciário, a agressividade da direita, o clima de violência que toma conta do País e, para completar, o surgimento de uma epidemia de febre amarela.

Sob o ponto de vista puramente econômico, esse ciclo começou com o Brasil altamente endividado no exterior, com hiperinflação, com a economia crescendo ainda que tropegamente, mantendo o emprego em níveis razoáveis, com péssima distribuição de renda, mas havia muita esperança no futuro, em um ambiente de euforia democrática, com imprensa e eleições realmente livres.

O ciclo termina com o País com reservas de US$ 380 bilhões, com uma dívida interna pífia, com uma inflação em torno de 3% ao ano, mas com uma crise fiscal ao lado de um desemprego altíssimo e com poucos avanços na distribuição de renda. Diriam alguns que o País trocou a dívida externa pela interna e deu no que deu. A economia começa a reagir, mas o governo só acena para o povo com novos sacrifícios. E nunca talvez tantos brasileiros emigraram ou pensam em emigrar.

Há pitonisas por todo canto, mas ninguém é capaz ainda de esboçar um cenário crível para as eleições presidenciais. Estando excluída a hipótese de uma candidatura de Lula, embora alguns graduados petistas insistam que o ex-presidente será candidato, o que se procura discernir é se qual será o vencedor do pleito de outubro: a direita, o centro-direita, o centrão ou a centro-esquerda.

A meu ver é que tudo vai depender de como Lula e cúpula do PT vão agir daqui em diante. Se tiverem bom senso – e bom senso não é uma das características do partido – não levarão a candidatura do ex-presidente “até o fim”, mesmo estando ele preso.

A melhor alternativa para o partido, a meu ver, seria apoiar um dos candidatos da centro-esquerda no plano presidencial, fortalecer os governadores petistas que buscarão a reeleição e procurar garantir uma boa bancada no Congresso. O candidato apoiado pelo PT pode perfeitamente ir para o 2º. turno e talvez chegar ao Palácio do Planalto.

Tudo isso é especulação, mas o certo é que o ciclo de Lula acabou e a questão agora saber em que medida o ex-presidente, ainda tão popular, poderá influenciar o ciclo seguinte.

Claudia Bozzo
Em entrevista recente, Tom Hanks definiu o filme de Steven Spielberg, “The Post – A guerra secreta” como “a história da semana em que Katharine Graham tornou-se Katharine Graham”. Mais uma das razões que tornam o filme bastante atual e interessante, pois trata da atuação de vários presidentes que mentiram descaradamente ao povo americano sobre a condução da Guerra do Vietnã, contando com um roteiro bem amarrado e uma narrativa esclarecedora. A história traz temas atuais, pois os EUA de agora enfrentam um mandatário que acusa a imprensa de mentir (o ataque é a melhor defesa?) e uma espécie de ‘nova’ revolução feminista, quando um novo senso ético se impõe, com o movimento #MeToo, de denúncia dos casos de assédio sexual, contra mulheres e contra homens.

De qualquer forma, a bravura do The Washington Post, assim como do The New York Times – que na verdade foi responsável pelo furo – naqueles longínquos anos setenta (no século passado!) – é a saga de época em que ficou mais evidente o compromisso da imprensa com a ética, a denúncia de violações e o serviço público. No caso, a opção de Steven Spielberg, claramente, foi de fazer um filme didático, onde não faltam informações sobre o tema central da trama, o vazamento dos Papéis do Pentágono. Esses documentos faziam parte de um estudo encomendado pelo então secretário da Defesa, Robert McNamara, a uma empresa chamada Rand Corporation, sobre as possibilidades de vitória no conflito do Sudeste Asiático. O presidente na época era Richard Nixon.

Os documentos vieram a público graças ao esforço de um pacifista e ativista que trabalhou na Rand Corporation como analista militar, Daniel Ellsberg, que como John Snowden (no século XXI), sacrificou sua vida pessoal em nome de ideais. Nos EUA, tais pessoas são chamadas de “whistleblower” sem qualquer conotação negativa – alguém que “assopra o apito”, e expõe a público delitos ou infrações cometidas por uma organização com a finalidade de dar um fim a isso. Ele chegou a ser considerado “O Homem Mais Perigoso da América”, título do filme de 2009 que conta sua história. É interpretado pelo ator britânico Matthew Rhys.

Sempre competente, Meryl Streep faz o papel da dedicada e sábia dona do jornal, Khatarine Graham, empresa que era de sua família e estava sob o comando do marido Philip Graham. Depois de uma crise de depressão, ele se suicidou, e ela, que jamais trabalhara fora, viu-se à frente do jornal. Na época desses acontecimentos, a empresa estava abrindo o capital, mas sem abrir mão do controle editorial e Katharine mostra sua intenção de investir o dinheiro captado na Bolsa com a contratação de pelo menos 25 novos jornalistas. Ela tinha como homem de confiança um dos grandes editores que o país teve, Benjamin Bradlee, já interpretado com elevada competência por Jason Robards (Em “Todos os Homens do Presidente”, de 1976), mas agora nas mãos de um inócuo Tom Hanks e sua estranhíssima peruca, que deve dar inveja até ao Kim Jong-un.

Além de ser ‘a semana que revela Khatarine Graham’, os acontecimentos elevam o The Washington Post ao nível dos jornais de primeira linha do país, nos eventos que serviram para consolidar a importância da liberdade de imprensa no país. A posição é consolidada apenas um ano depois, graças à atuação corajosa do mesmo jornal no caso Watergate, com o mesmo Bradlee à frente da redação.

O fato de ser um filme didático não o desmerece, porque tais fatos, do século passado, estão presentes provavelmente apenas na cabeça de jornalistas de uma certa faixa etária. É importante que as novas gerações saibam o que pode ser a função de um jornal, como em “Spotlight: Segredos Revelados” de 2015, vencedor do Oscar de melhor filme, que traz o relato sobre a denúncia que o Boston Globe fez, de casos de pedofilia em meio ao clero local. Por coincidência, um dos chefes daquele jornal era o filho de Bradlee, Ben Bradlee Jr. Outros filmes ressaltam o mesmo tema, como “Snowden: Herói ou Traidor”, de 2016, dirigido por Oliver Stone. Há também a história do “whistleblower” do Watergate, “Mark Felt – O Homem que Derrubou a Casa Branca”, de 2017, que deixa muitas interrogações para quem não estava familiarizado com os acontecimentos e não sabia nem quem era o famoso “Deep Throat”. “O Quinto Poder” de 2013, tem Benedict Cumberbatch no papel de Julian Assange, o criador do Wikileaks.

A rivalidade entre os jornais, o poderoso NYT e o bravo Washington Post torna-se uma aliança em defesa da liberdade de imprensa quando ambos são processados – e absolvidos na Corte Suprema – por traição e conspiração contra o governo Nixon. Como alertou McNamara a Katharine Graham, pois eram amigos, “cuidado com Nixon. Ele é mau e fará tudo que puder para acabar com seu jornal”. Também Daniel Ellsberg foi processado e condenado a 115 anos de prisão, por espionagem e traição, mas teve a pena revogada por falhas no processo.

É uma viagem no tempo, de volta às redações esfumaçadas, aos telefones de discagem, ou telefones públicos, ao grande avanço tecnológico que era máquina de Xerox, aos tempos dos tipos de chumbo e rotativas gigantescas, em geral no subsolo dos jornais e de jornalistas com terno e gravata.

E quem se saiu mal, no final das contas, foram Richard Nixon e seus cúmplices. Uma lição a ser aprendida.