mar 05

Klaus Kleber

O anúncio de que o presidente Donald Trump vai taxar em 25% o aço importado pelos EUA. atingindo fortemente as exportações brasileiras do produto, coloca em difícil situação aqueles que argumentam em favor de uma redução do protecionismo no Brasil.

Ainda há pouco, com a decisão da Camex de rejeitar, pelo menos por um ano, o pedido das siderúrgicas nacionais de imposição de tarifas sobre o aço importado pelo País, o  governo mostrou disposição de resistir às pressões protecionistas internas. A meu ver, as autoridades agiram certo nesse caso. Mas, e agora?

São fortes os protestos na União Europeia (UE) contra a ofensiva protecionistas de Trump, que inclui também o alumínio. Os europeus podem optar por uma retaliação contra os produtos americanos, que poderiam também ser sobretaxados.

O governo brasileiro não parece disposto a entrar nessa, procurando convencer Washington de que exportamos semi-acabados de aço, não produto final, o que significa que a elevação de tarifas pelos EUA poderia representar aumento de custos para as empresas americanas que processam o produto. E isso acabaria se refletindo nos preços ao consumidor em uma fase em que a inflação americana começa a mostrar sua carinha feia.

O argumento é bom, mas dificilmente ele será aceito. Trump não falou em excluir da medida os seus parceiros no Acordo de Livre Comércio da América do Norte (NAFTA) e se não vai abrir exceção para o Canadá e o México, ao que tudo indica, por que o faria com relação ao Brasil?

Pela visão mercantilista de Trump, o Brasil não faria jus, pois também é superavitário em suas relações comerciais com os EUA, embora o saldo positivo tenha sido pouco significativo em 2017 (US$ 2,1 bilhões).

Do ponto de vista de uma política industrial, há outra forma de ver a questão. O Brasil adota uma política excessivamente protecionista, que muitas vezes atrapalha, se não impede, a integração com os fluxos internacionais de produção.

Aumentar mais as tarifas alfandegárias, além de constituir um sério obstáculo para a conclusão de acordos internacionais de comércio pelo Brasil, afeta a atração de novos investimentos e deixa a indústria nacional ainda mais defasada.

Não são poucos os que defendem uma saída pelo câmbio. O fato é que, graças à entrada de dólares carreados pela importação de produtos agrícolas e matérias primas, o real está sobrevalorizado, já havendo quem fale que o País já sofre da chamada “doença holandesa”.

O problema é que o Banco Central (BC) só admite intervir no câmbio por meio dos “swaps” cambiais, quando as cotações do dólar se elevam acima de determinado patamar. Nessas ocasiões, é facilmente esquecido o compromisso da política econômica com o câmbio flutuante.

Nunca foi feita uma intervenção no mercado de câmbio para puxar a cotação do dólar para cima para facilitar a exportação de manufaturados e evitar danos causados por medidas como as anunciadas por Trump. Tudo mudaria de figura se, por exemplo, o semi-acabado de aço, hoje exportado a uma taxa de câmbio de R$ 3,24, estivesse sendo vendido no mercado internacional a uma taxa de R$ 3,40 por dólar.

Alterar a política é atualmente é inviável. Contudo, uma desvalorização do real pode ocorrer mais adiante. Com o crescimento mais acelerado da economia dos EUA. o dólar se tornará mais forte, acarretando mais inflação.

O Federal Reserve Board (Fed), como já se prevê, deve subir a sua taxa básica de juros mais rapidamente do que se imaginava, e isso pode reduzir o fluxo de aplicações financeiras externas para os emergentes, como o Brasil, com consequente desvalorização do real.

A grande dúvida é e isso pode ocorrer a tempo e com intensidade suficiente para salvar do colapso as exportações brasileiras de aço e outros produtos manufaturados.

 

written by Leonardo Trevisan


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