fev 16

Heraldo Bighetti Gonçalves

– Jurandir! Acorda Jurandir!!

– Quem? O quê? Consuelo são cinco da manhã!

– Olha lá, a luz da cozinha tá acesa. É a Esmeralda!! A Esmeralda voltou!!!

A água fluía em obediente fluxo pelo bico da chaleira. O pó de café misturava-se e o aroma tomava conta da cozinha. Esmeralda sinalizava que o sol já poderia sair lá pelos lados da zona leste. Mas, graças ao horário de verão, ele ainda demoraria.

– Essa escuridão acaba no sábado e tudo voltará ao normal. Ô, ô.

Voltar para a rotina é uma tarefa carregada de pequenos rituais que foram substituídos por outros tantos durante as férias. Aos poucos eles retornam e se estabelecem. Escrever sobre publicidade, por exemplo.

No calendário mundial da publicidade, o evento Super Bowl é esperado como um dos grandes momentos da publicidade norte-americana. Desde aquela noite, em 1984, quando o MacIntosh foi lançado com o comercial dirigido por Riddley Scott, a publicidade mundial também mudou de patamar. Os espaços publicitários durante a final do campeonato de futebol americano passaram a ser disputados a tapa. Tapa de milhões de dólares para cada espaço publicitário de trinta segundos.

– Preciso de verba pra ir na feira. Não tem nada nesta casa! A mão de Esmeralda surgiu na frente da tela do meu laptop, fazendo o típico gesto de “me dá um dinheiro aí”.

– Verba? Como assim? Estranhei o termo pouco usual nas falas de Esmeralda.

– É, verba. Estou me acostumando pra falar igual aos donos de agência.

Lá vinha a história da agência que Esmeralda ia fundar. Desde que ela deu a notícia (ou seria ameaça?) preferi ignorar torcendo para cair no esquecimento.

San Francisco 49ers e Baltimore Ravens fizeram no domingo 6 de fevereiro a esperada final. Os Ravens levaram a taça. E os comerciais estavam lá representando aquilo que os americanos esperam ser através de seus quereres.

Um fato inédito aconteceu: faltou energia por cerca de trinta minutos. Típico de estádios sul-americanos, esse é mais um sinal dos tempos estranhos em que vivemos.

– Sem verba, não tem papa.

– Você também acha que está acontecendo alguma conspiração no Vaticano, Esmeralda?

– E eu sei lá. Papa é papa, de comer. Ô, ô.

Assisti a todos os comerciais e fiquei com a sensação de que o fenômeno da publicidade correta afeta os EUA. Não só isso, mas a compulsão de emendar as histórias apresentadas com extensões digitais revela o mantra da interatividade imposta ao consumidor. Cadê o produtor/consumidor?

Chama também a atenção um contexto mais emocional, mesmo quando o humor embala a mensagem. A família é uma presença constante e o gatilho do sentimento, da emoção, é muitas vezes acionado. O comercial da Coca-Cola, das câmeras de vigilância, é magistral e um prato cheio para interpretações antropo-sócio-psico-patológicas.

O comercial do Tide é outro que destaco pela qualidade do humor. O sabão em pó tem como conceito de campanha as manchas nas roupas. A relação feita entre a mancha na camiseta do torcedor do 49ers e a revanche da esposa do Ravens é hilária. Estão presentes os tradicionais comerciais de Doritos, sempre malucos. E o bebê da E.Trade. Assim, os produtos e serviços que usualmente anunciam, ganham sua versão exclusiva do Super Bowl. Como outro exemplo, a Budweiser usa seus emblemáticos cavalos Clydesdales (veja mais sobre eles na Internet) em uma história de amizade bem emocional. E dá-lhe participação do telespectador para a promoção que escolherá o nome para um equino filhote.

Esmeralda, para variar, estava olhando o que eu estava digitando, com Nizan no ombro.

– Hummm. A Alana não ia gostar nada disso. – Alana, Alana! repetiu Nizan.

– Você conhece a Alana? perguntei desconfiado.

– A mulher do síndico? Aquela quer mandar em tudo e vive dizendo como devem ser criadas as crianças do prédio? Ô, ô!!!

Veja no Youtube:

Coca-Cola Câmeras de Segurança

http://www.youtube.com/watch?v=ceTBF1Hik5I&feature=player_embedded

Tide Mancha Joe Montana

http://www.youtube.com/watch?v=YoOfBVraMNw&feature=player_embedded

Budweiser Clydesdales

http://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=DNWURTYwn3k

written by Leonardo Trevisan


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