nov 26

Claudia Bozzo
Foi muito breve a carreira de “Uma Sequência Inconveniente”, apresentado em julho nos EUA, que ficou poucas semanas nos cinemas de São Paulo, depois do lançamento em 9 de novembro. O primeiro filme, “Uma Verdade Inconveniente” (2006), arrecadou quase US$ 50 milhões em todo o mundo, além de conquistar o Oscar de melhor documentário de longa-metragem em 2007. Um Oscar que não foi para seu idealizador e mentor, o ex-vice-presidente dos EUA, Al Gore, mas sim para o diretor, Davis Guggenheim. Gore diz que tem “custódia partilhada” sobre a estatueta. E sem dúvida os méritos de um empreendimento de tal porte.

Mas a sequência do filme, rodada onze anos depois, certamente foi vitimada pelo grande vilão de nossos dias, o “implacável” adversário de Kim Jong-un (sem dúvida, inimigos que se merecem) o presidente Donald Trump. O filme estava pronto, quando foi necessário refazer o final, pois Trump anunciou, em junho, a retirada dos EUA do acordo de Paris sobre mudanças climáticas. Os cineastas de “Uma Sequência Inconveniente” viram-se à frente das dificuldades que ameaçam todos documentaristas. Da mesma forma como um roteirista pode moldar a narrativa, é impossível controlar os acontecimentos do mundo real. Novo material foi acrescentado à edição final do filme que teve sua première no Festival de Cinema de Cannes.

“Foi decepcionante e um tanto inesperada”, disse Al Gore sobre a decisão do presidente. “Eu havia conversado com ele e sua filha Ivanka, uma verdadeira defensora do acordo. Acreditei que havia uma chance 50/50 de ele permanecer no acordo, mas Deus sabe que não consigo analisá-lo psicologicamente,” disse Gore em entrevista ao The New York Times.

Isso acabou funcionando como um literal anticlímax para o filme que até então vinha num crescendo bem interessante, com os esforços de Gore para conseguir que a Índia abrisse mão de sua iniciativa de adotar o carvão para produzir energia. Pelo menos resta o consolo de que a Índia realmente adotou a opção favorável ao meio ambiente, graças aos incentivos econômicos que Al Gore intermediou e que são mostrados no filme em um clima de muito suspense. O elemento desestabilizador foi mesmo Trump.

Certamente esse desfecho atuou contra o filme, mas de qualquer forma, ele perdeu o impacto gerado há uma década por “Uma Verdade Inconveniente”.

Na sequência, Guggenheim atuou como produtor executivo e transferiu a tarefa de direção a Bonni Cohen e Jon Shenk, casal de documentaristas conhecidos por “The Island President” e “The Rape of Europa”. Em vez de se concentrar na apresentação de imagens de Gore sobre as mudanças climáticas, que integravam o núcleo básico do filme original, Cohen e Shenk adotaram uma abordagem de cinema-verdade, acompanhando o defensor do meio-ambiente durante mais de dois anos.

Mas o filme veio no sabor déja-vu e embora muito interessante e dedicado à esperança, mostrando o que existe em preparação em todo o mundo, quanto à substituição pela geração limpa de energia, não conseguiu emocionar.

Cohen e Shenk disseram-se confiantes de que o filme terá seu público entre pessoas de todas as idades, sedentas por autenticidade nessa era das chamadas “falsas verdades” (fake news). “O renascimento dos documentários mostra que eles estão tomando o lugar do jornalismo investigativo de longas matérias”, disse Shenk. “Há algo indiscutível num documentário – não se trata de uma reportagem sobre Al Gore, mas sim de estar com ele.” Essa é uma das partes mais interessantes do filme: o treinamento conduzido por Gore, às equipes de ambientalistas. Ele é visto com cientistas na Groenlândia, treinando ativistas nas Filipinas e ocupando-se das negociações para o acordo de Paris.

Reportagem publicada por The Economist na semana passada, sobre o encontro de Bonn para reavaliar as decisões da reunião, de Paris, diz que o grande dano provocado pelos Estados Unidos com a decisão do governo Trump pouco tem a ver com a redução das emissões de CO² pelo país. O pior mesmo é o mau exemplo: “o problema é a cobertura que os Estados Unidos deram a outros, ao evitar reconhecer a existência do problema”.

Em breve o documentário deve ser transmitido por TV a cabo, Netflix ou qualquer outro serviço de vídeo por demanda. E sempre se aprende alguma coisa com Al Gore, um paladino moderno, lutando contra inimigos sorrateiros, acobertados e patrocinados por poderosos.

written by Leonardo Trevisan


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