dez 01

Heraldo Bighetti Gonçalves

Nizan vivia empoleirado na área de serviço assistindo a TV de Esmeralda. Mas não era de tudo o que lhe chamava a atenção. A programação, não importava. Mas, quando entrava o intervalo de comerciais, descobri que Nizan mudava o comportamento. Encantava-se seria o termo certo. O fato aconteceu como segue.

Esmeralda chamou-me uma noite, durante o Jornal Televisivo, para observar o emplumado. Achei estranho, pois Nizan estava de costas para a TV mastigando solenemente uma semente de girassol. Olhei com uma cara de “E daí?”, Esmeralda fez um psssiu quase subsônico. Fiquei imediatamente persignado em silencio. No écran, as desgraças de sempre: políticos dizendo que não sabiam de nada, gente pobre se reencontrando e chorando, a última guerra em cartaz etc. Porém, bastou o sorridente âncora anunciar as notícias do próximo segmento para Nizan virar o verde pescoço. Até deixou cair a semente. Com elegante giro sobre o poleiro, Nizan se põe de frente para a TV, espicha o pescoço e vira estátua.

Passa o primeiro comercial. Nizan, durante os trinta caríssimos segundos, vai  relaxando e balançando a cabeça pra cá e pra lá. No segundo comercial, mesmo procedimento. Nesse momento, Esmeralda me cutuca e sussurra – É agora…

Começa a passar o comercial de um SUV nacional. Aquele que foi levado até algum longínquo país do Oriente. Ao final do filme, Nizan faz um esforço e pronto, o jornal que forra o fundo da gaiola ganha mais uma marca bem sobre a foto do novo técnico da seleção canarinho.

Um riso gostoso da Esmeralda marca o final do brake e a volta do jornal com a previsão do tempo. Nizan, de um salto, vira-se e passa a escolher a próxima semente a ser degustada.

O tal comercial realmente era meio esquisitão. O locutor orgulhosamente declara que o tal SUV foi levado em um lugar bem distante para mostrar que ele vai longe. Um posicionamento normal, todos fazem isso. Mas, o que chama a atenção são as estradas que o carrinho percorre. O asfalto perfeito, curvas bem pensadas entre paisagens deslumbrantes. É aqui as dúvidas assolam as mentes observadoras: afinal, o que o comercial está vendendo com esse “longe”?

O veículo foi levado por um navio até o tal lugar. Lá desembarcou e, depois de ser levado para o local das filmagens, fez o que qualquer automóvel faz. Nem uma subidinha mais íngreme ele pegou. Lama, nem pensar.E a piadinha? Ficou por conta de uma mocinha que surge do nada, no banco de traz, e fala “GPS”. Ela tem o mesmo sotaque de dona Mayumi que tem uma barraca de pastel na feira (muito amiga de Esmeralda).

Penso que alguma coisa se perdeu no caminho entre o pedido do marketing da montadora e a criação da agência. E posso apostar que, além do foco, foi a criatividade. Nesse momento, pensei: alguém aprovou. E, graças aos deuses da publicidade, o consumidor vai dar a palavra final.

– Você acha o mesmo que eu estou pensando? – perguntei para Esmeralda enquanto ela me expulsava de seus domínios.

-Acho – respondeu, ela. Nizan não gostou desse último. Ô, ô!

Era o que me faltava, mais um crítico de comerciais em casa!

written by Leonardo Trevisan


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