abr 06

Heraldo Bighetti Gonçalves

No exato instante que você está lendo estas linhas, o tal comercial “viral” da Mercedes – o AAAAAA Leklek lek lek lek – deve ter ultrapassado mais de um milhão de views no Youtube. Sucesso absoluto.

Esmeralda entra gargalhando lá na cozinha.

O hit mundialmente famoso, no Brasil, “Passinho do volante”, do extraordinário músico MC Federado (e seus Leleks), inova a vetusta marca alemã.

Mais uma gargalhada da Esmeralda.

O cluster “dos Vida Lôca” deve estar vibrando. Que o Camaro amarelo fique lá com os sertanejos universitários, agora eles têm a classe A alemã para poder desfilar por aí, com caixas de som no porta-malas urrando AAAAAAAA leklelk lek etc.

Esmeralda está ofegando. Começo a ficar preocupado com suas gargalhadas.

Ironias de lado, não podemos ficar indiferentes a tamanha indignação de tantos a esta ação de comunicação mercadológica. Perca um pouco do seu precioso tempo e entre também no Youtube para ver o tal viral (http://www.youtube.com/watch?v=skHkv7kMAv8 . Mas, o mais interessante e hilário fica por conta dos comentários que são muito mais inspirados e vicerais do que estes aqui.

Talvez você não saiba, o Classe A é um automóvel que possui uma legião de fãs. Um público de meia-idade que respeita a marca da estrela de cinco pontas e a ela reputa o máximo da tecnologia, conforto e… ops!!! Parece até anúncio. Desculpe a nossa falha.

Esmeralda parou de rir e a respiração deve ter voltado ao normal.

Para provar essa fidelidade, existe uma fila de espera para o automóvel que custa praticamente cem mil reais.

Peço licença para comentar o porquê de se fazer publicidade. Esses consumidores, que adoram a marca e o veículo, o fazem por identificar uma imagem que corresponde ao que eles querem passar de si para o mundo. Os marqueteiros identificam isso e usam a estratégia de posicionar a marca para esse consumidor. As marcas possuem um tipo de alma, de personalidade, que foi construída e é reforçada constantemente pelas várias formas de comunicação com o mercado. Uma boa metáfora é a da construção de uma amizade. Nos automóveis, essa identificação é fundamental.

Esmeralda entrou na sala. Lágrimas ainda molhavam suas rugas. – O que aconteceu? pergunto.

– Sabe o Totó, do açougue? Pois é, acabei de cruzar com ele na rua. Ele estava vestido de terninho de ver Deus e… ai não posso lembrar…

Esmeralda desatou a rir. – E usando um brinquinho na orelha. Quase bati de cara no poste.

A mudança que a fabricante de automóveis fez na sua comunicação foi muito forte. Há um conflito enorme entre histórico da marca e histórico da imagem do funk carioca. Um contraponto tão forte que realmente repercute. Ou seja, foi tão original quanto alguém comer a meia, porém com efeitos desastrosos. Por isso, a justificativa de tentar mudar a imagem para atingir um público mais jovem fica perigosa.

– Acho que o Totó não entendeu bem quando eu e o Nizan sugerimos que ele ficasse mais moderno – continuou Esmeralda.

– Pois é, Esmeralda. E o que você acha desse comercial?

Passei o tal comercial e Esmeralda ficou com aquela expressão que eu conheço bem.

– Acho que deveriam pacificar a agência que fez isso. Ô, ô!

written by Leonardo Trevisan


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