mar 04

Claudia Bozzo

“Não existe estranheza que se possa imaginar que seja mais estranha do que a vida de pessoas aparentemente convencionais na intimidade”.

A frase, dita por Daniel Day-Lewis a respeito de “Trama Fantástica” parece meio enigmática. Mas para quem assistiu – ou vai assistir – ao filme dirigido por Paul Thomas Anderson, ela cai sobre o enredo com a perfeição das roupas criadas pelo estilista que ele interpreta, o enigmático, exigente e perfeccionista Reynolds Woodcock.

Não fosse a presença avassaladora do Churchill interpretado por Gary Oldman em “O Destino de uma Nação”, Day-Lewis não seria páreo para ninguém no Oscar, deste domingo à noite, por este belíssimo e estranho filme, que se passa em Londres na década de 1950 e é inspirado no basco Cristóbal Balenciaga, um dos ícones da alta costura, que vestiu mulheres como Audrey Hepburn e Jacqueline Kennedy, entre outras elegâncias consagradas.

Day-Lewis não confirma explicitamente, mas já é de domínio público que após esse filme, o inglês nascido em 1957 vai se aposentar. Sem dúvida, deixa um legado e tanto, desde que começou no cinema, em 1971, vindo a explodir como astro após “Minha Adorável Lavanderia”, de 1985, dirigido por Stephen Frears. Cada pessoa tem seu filme favorito de Day-Lewis, embora seja difícil escolher entre “A Insustentável Leveza do Ser” (1988), “Meu Pé Esquerdo” (1989), “Em Nome do Pai” (1993), “Sangue Negro (2007), “Lincoln” (2012) e tantos outros.

“Trama Fantasma” veio dos anos de colaboração criativa com Anderson. O ator é conhecido por sua imersão completa em um personagem antes do início das filmagens (construiu canoas enquanto se preparava para “O Último dos Moicanos”, 1992). Para compor o estilista de “Trama”, foi aprendiz durante quase um ano, de Marc Happel, diretor de figurino do New York City Ballet, para transformar-se em Reynolds – um fanático por controle com um zelo perfeccionista pela costura. Estudou desenho, costura manual e drapejamento, chegando a pregar 100 botões e refazendo um vestido tubinho de Balenciaga a partir do zero.

No filme, ele contracena com a britânica Lesley Manville, que aparece como a imperiosa irmã e gerente de negócios do estilista Reynolds, Cyril; e com a atriz luxemburguesa Vicky Krieps, que interpreta Alma, a obstinada musa do estilista. A história rondou o dia a dia de Paul Thomas Anderson durante cerca de três anos, e definiu-se quando ele comprou num aeroporto uma biografia de Balenciaga e seu personagem principal moldou-se no mestre do estilo cuja rotina monástica foi interrompida por um novo amor.

O relacionamento entre os três é mostrado em detalhes sutis, na economia de diálogos e jogos de olhares, ações e detalhes. Mostra também o amadurecimento de um diretor dono de impressionante currículo e que expande sua atuação a campos tão diferentes quanto o surgimento da indústria do pornô em cinemas dos EUA (“Boogie Nights, Prazer sem Limites”, 1997), estranhos relacionamentos (“Magnólia”, 1999) e os primeiros tempos da indústria do petróleo (“Sangue Negro”, 2007)

Day-Lewis está impecável. Como sempre. Elegante, contido, com toda a força de sua presença, revelando como as pessoas podem ser governadas por desejos que parecem alheios mesmo para si mesmos.

Sobre seu trabalho como ator, ele contou em uma entrevista ao The News York Times que já explorou “muitos mundos diferentes, e o que eles têm em comum é que sempre foram inteiramente misteriosos para mim no começo”, disse ele. Isso é “provavelmente uma grande parte do fascínio – descobrir algo que parece estar fora do alcance, às vezes impossivelmente além do alcance, que o empurra para a frente até entrar em sua órbita de alguma forma”.

E como o grande ator que é, ele transporta essa experiência conquistada para nossas telas, levando-nos a esses mundos diferentes, numa imersão de alto teor dramático.

Balenciaga, o estilista que inspirou Anderson, nasceu em San Sebastian em 1851. Montou sua Maison na Espanha, mas por causa da Guerra Civil foi obrigado a mudar-se para Paris em 1937. Foi um sucesso, na meca da moda e faleceu em 1972, depois de inspirar e dar aulas de moda a Oscar de La Renta, Emanuel Ungaro, André Courrèges e Hubert de Givenchy.

written by Leonardo Trevisan


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