Klaus Kleber
Finalmente, o governo parece ter acordado para as tentativas de certos setores industriais para reforçar o protecionismo, convindo lembrar que o Brasil continua sendo um dos países mais fechados do mundo em matéria de comércio exterior.

Rejeitando pressões, a Câmara de Comércio Exterior (Camex) decidiu em reunião extraordinária na semana passada não elevar as sobretaxas sobre a importação de chapas laminadas de aço procedentes da China e da Rússia, que hoje variam entre 10% e 14%. A imposição de uma nova sobretaxa vinha sendo reivindicada por siderúrgicas com alegação de “dumping”, com apoio do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC).

Prevaleceu, no entanto, o ponto de vista do Ministério da Fazenda de que a imposição desse gravame poderia ter efeitos maléficos sobre a cadeia produtiva e sobre a inflação. Além disso, como se manifestaram o Ministério da Agricultura e o Itamaraty, a sobretaxa poderia provocar retaliação por parte de mercados como os da China e da Rússia que são grandes importadores de produto agropecuários do Brasil.

A decisão tomada pela Camex não podia ser mais adiada, vencendo no dia 20/1 fixado, de acordo com a lei que rege a aplicação de direitos antidumping. Em reunião em novembro, o tema foi colocado, mas houve divergências que acaram tolhendo uma deliberação pela Camex. De qualquer forma, como deixou claro o ministro do Planejamento, a decisão não significa que o País tenha se tornado condescendente com a prática de “dumping”, desde que ela seja perfeitamente configurada. Por esse motivo, o ministro do Planejamento Dyogo Oliveira disse que o governo vai investigar cinco empresas suspeitas de praticar preços artificialmente reduzidos, em desacordo com as normas da Organização Mundial de Comércio (OMC). Assim, a imposição de um novo gravame sobre essas importações fica suspensa por um ano.

Como seria de prever, empresas do setor siderúrgico reclamaram, mesmo porque este é um caso raro em que o governo adota uma postura claramente antiprotecionista. O fato é que, como notou a Camex, tem havido redução das importações de laminados de aço, sendo as empresas estrangeiras que vendem o produto para o País responsáveis por apenas 6% do mercado.

Como tem sido noticiado, a China desativou várias de suas siderúrgicas mais antiquadas, sob o controle do Estado, que vinham praticando preços irrealistas e que eram praticamente insolventes. Isso fez com que a oferta de aço da China se reduzisse bastante no mercado internacional.

Como os insumos (minério de ferro e carvão) também estão em alta, isso tem levado a um aumento do preço do aço, em benefício inclusive das siderúrgicas nacionais. Segundo relatório de analistas desse mercado do BTG, de autoria de Leonardo Corrêa e Gerard Roure, “estamos mais otimistas com o setor como jamais estivemos em anos”. (Infomoney, 12/1). Uma prova disso é que as exportações brasileiras de produtos laminados de ferro e aço alcançou US$ 2,204 bilhões em 2017, um aumento de 38,2% em relação ao ano anterior (US$ 1,595 bilhão).

Pesou também na decisão da Camex o impacto do aumento de preços para os setores consumidores de aço, podendo levar a uma redução da atividade econômica, afetando a indústria de bens de capital, a produção de vários bens duráveis de consumo, indo de eletrodomésticos a veículos. e também a construção civil, que vem empregando cada vez mais aço.

Estudo da ICA Consultores, por encomenda da Associação Brasileira de Máquinas e Equipamentos (Abimaq), estimou que o aumento pretendido da alíquota do Imposto de Importação (II) para laminados de aço levaria a aumento de custos de R$ 1,5 bilhão.

A suspensão da sobretaxa é um desafio às siderúrgicas instaladas no País, que, pois da crise pela qual passaram, têm oportunidade de demonstrar se têm ou não condições de competir em um mercado globalizado, sem as muletas do aumento de tarifas alfandegárias.

Klaus Kleber
A não ser o ministro da Fazenda Henrique Meirelles, ninguém esquenta mais a cabeça com as notas dadas ao Brasil pelas agências internacionais de classificação de risco. Os técnicos da Standard & Poor’s resolveram na semana passada dar um susto nos brasileiros baixando a nota de crédito do País de BB para BB-. Os mercados não reagiram como se estivesse sendo anunciada uma catástrofe — a Bolsa pouco se mexeu e o dólar também não disparou.

Aí veio a explicação, que o próprio Meirelles comprou depois de se refazer de uma declaração infeliz: o mercado já havia “precificado” a baixa da nota de crédito do Brasil, pois, como todo mundo sabe, está difícil equacionar a questão do déficit das contas públicas em 2019, sem quebrar a chamada regra de ouro. Um amigo meu comentou que, na realidade, o mercado brasileiro já “precificou” as próprias agências de risco, cujas notas só valem para dar ou tirar grau de investimento. Baixar de BB para BB- não diz nada.

Brasileiro só dá importância quanto seu time ou sua escola de samba ganha o campeonato. Ser vice interessa tanto como ser terceiro ou quarto lugar. Um tracinho numa nota não sensibiliza ninguém. Além disso, dizer que a nota da S&P tira o selo de bom pagador do Brasil é conversa fiada. O País está pagando tudo lá fora, inclusive aquela multa que a Justiça americana impôs a Petrobrás de US$ 2,95 bilhões.

Aliás, a S&P fez uma ressalva: o Brasil está em boa situação quanto à dívida externa. Com reservas de US$ 382 bilhões poderia até eliminá-la. Foi pouco mencionado o fato de que, há pouco, o governo brasileiro usou US$ 1,818 bilhão para recomprar títulos antigos que remontam à renegociação da dívida externa — e as reservas nem se mexeram. E o governo pode e deve comprar mais títulos que estão no mercado internacional, com o que até economistas mais ortodoxos concordam.

Assim, se a Moody’s e a Fitch — as outras duas grandes agências de classificação de risco – não devem fazer a burrada de acompanhar a S&P, que acabou tendo mais influência política do que econômica. A consequência do rebaixamento da nota foi esquentar a briga entre o ministro Henrique Meirelles e o presidente da Câmara Rodrigo Maia, ambos presidenciáveis já não mais “in petto”. O melhor que podem fazer as agências internacionais é ficar quietinhas nesse ano eleitoral.

Claudia Bozzo
Tom Wolfe e seu sarcástico e irresistível livro “A Palavra Pintada” é a primeira referência que vem à mente no início de “The Square – A Arte da Discórdia”, uma coprodução entre Suécia, Alemanha, Dinamarca e França. Mas não é a única referência. Outras virão, com o desconforto que o filme vai provocando aos poucos, mesmo algumas resenhas o descrevam como “comédia dramática”, pois o senso de humor entra em pinceladas sutis.

Premiado com duas Palmas de Ouro em Cannes em 2017, para melhor filme e diretor, é obra de Ruben Östlund, o mesmo de “Força Maior” (2014), que retrata um pai de família que, ao tomar o café da manhã com mulher e filhos em uma estação de esqui, percebe o desencadear de uma avalanche e cuida da própria pele sem preocupar-se com qualquer um de seus familiares.

Já “The Square” está em outro ambiente. Ac0mpanha as atribulações do curador de uma importante galeria de arte de Estocolmo (com Claes Bang no papel), cujas tarefas incluem bajular muitos para obter verbas e dotações para manter as exposições. Ele quer criar polêmica, quer atrair o público e em resumo quer agradar a todos, mas parece conquistar poucos sucessos, tanto no campo social como profissional.

A referência a Tom Wolfe vem logo de início, quando o curador é entrevistado por uma jornalista americana, Anne (Elizabeth Moss, conhecida pelo seu papel em “Mad Men”) que repete uma frase do catálogo de apresentação da nova mostra, “The Square”, texto com frases pomposas e vazias. Ela cita uma das frases e pergunta ao curador, Christian, se ele poderia explicar a ela o que aquilo quer dizer. Ele se enrola e tenta sair pela tangente. A tal exposição consiste de uma instalação, concebida por uma artista argentina, que a define como uma ‘utopia em miniatura”, uma espécie de espaço de refúgio e calma.

Até um sociólogo é chamado para explicar a obra à alta burguesia que frequenta os jantares do museu e abre suas carteiras, caindo no que Wolfe define como a palavra pintada que ajuda a entender essa forma de expressão que é parte da arte moderna. Irreverente e sarcástico, Wolfe, em 1974, concluiu, como explicou em inúmeras entrevistas, ao ler a edição dominical do The New York Times, que a arte moderna havia se tornado inteiramente literária: as pinturas e outras obras só existiam para ilustrar o texto.

Mas são duas horas e meia de filme, e a trama percorre o que há de mais inquietante nesse momento na Europa, mostrando-se uma verdadeira sátira surrealista. Ao andar distraidamente por uma rua de Estocolmo, o curador Claes vê-se envolvido em situação bizarra: uma mulher passa gritando e esconde-se atrás de outras pessoas. O clima de pânico se desfaz em instantes e ao chegar à galeria, ele percebe que está sem o celular, a carteira e as abotoaduras.

É a busca por esses objetos que traz a Europa de hoje à tela: a intranquilidade com a questão da imigração, tema que paralisa políticos em vários países. Pelo localizador de seu celular, descobre com a ajuda de um funcionário da galeria, que ele está em uma das regiões da periferia de Estocolmo (na verdade, é até difícil descobrir que tal local é periferia, mostrando que o fosso que separa as classes nos países nórdicos é bem raso, em relação a outros). Então resolve ir até lá com seu carro elétrico e colocar uma carta sob a porta de cada um dos apartamentos do prédio onde estaria seu telefone, dizendo ter sido roubado e ameaçando denunciar o caso à polícia.

O conflito se forma e é mais uma das confusões que deixam o curador à beira de um ataque de nervos, além de ter de cuidar das filhas, enfrentar um relacionamento com a jornalista que o entrevista no início e lidar com as repercussões da campanha criada por dois publicitários, cuja meta é “viralizar” na internet.

Desconfortável, surreal e denso, o filme percorre o terreno minado das relações e ressentimentos sociais, das estruturas do poder e prepotências em geral. O jantar, formal e requintado tem a participação de Oleg um “artista performático” que leva esse desconforto a um ponto quase insuportável, não fosse a necessidade de sempre manter as aparências. 

O desconforto está também nas interrupções feitas durante a palestra de um dos artistas com obra expostas no museu, interpretado pelo britânico Dominic West, ou ainda na criança que é levada pelo pai às reuniões de escritório, e não para de chorar. Ou no garoto que se sente com direito a um pedido de desculpas por ter sido punido pelos pais em função da carta deixada sob a porta de seu apartamento. Duro como a realidade, é um filme daqueles que ficam dando voltas na sua cabeça e a cada pouco mais uma porta se abre em sua mente.

Regra folheada a ouro?

08 / 01 / 18

Klaus Kleber
A discussão sobre a tomada de empréstimo para cobrir o rombo orçamentário previsto, quebrando assim a chamada regra de ouro — o dispositivo da Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF) que proíbe o governo de tomar empréstimo para pagar despesas correntes — não faria sentido ocorrer neste momento.

O ministro da Fazenda Henrique Meirelles, agora também um presidenciável, assegura que que a meta para o déficit primário em 2018 (R$ 159 bilhões para o governo central) pode ser cumprida com corte de despesas e aumento das receitas tributárias em razão do crescimento do Produto Interno Bruto (PIB), oficialmente estimado em 2%.

O problema só se tornaria mais agudo em 2019 e assim é impossível separá-lo da questão da sucessão presidencial e isso explica o açodamento da proposição de um “waiver” ou suspensão provisória das obrigações impostas pela LRF. Aberto esse precedente com o tal empréstimo, a regra de ouro seria, por assim dizer, folheada, baixando ao nível de bijuteria.

Acontece que caberá ao atual governo apresentar até o fim de agosto a proposta orçamentária para o ano que vem, dentro do teto estabelecido, ou seja, deve elaborar o orçamento para o primeiro ano do presidente a ser eleito em outubro ou novembro, se houver, como tudo indica, um segundo turno. Aí está o embrulho, pois já se sabe que as receitas não cobrirão as despesas correntes no próximo ano. A solução que vem sendo discutida seria suspender a regra de ouro para 2019, pelo menos, de modo a evitar que o presidente Michel Temer incorra em crime de responsabilidade.

Se não for encontrada uma saída, será mais um dos crimes que Temer terá de responder depois de deixar o Planalto. Mas, se concordar com o empréstimo, o atual governo desmentiria os esforços de seu governo para controle das contas públicas, reduzindo ainda mais o seu capital político para aprovação da reforma da Previdência.

A saída ortodoxa seria um corte violento de despesas em 2019, abrangendo mesmo as dotações obrigatórias para educação, saúde, bolsa-família, etc. Regra de ouro ou não, a grande questão é que não há como garantir que o próximo presidente da República, além de ter de engolir o teto de gastos, venha aceitar um corte violento de verbas.

Há uma outra hipótese que, ao que eu saiba não foi cogitada: o uso de parte — uns US$ 10 bilhões ou US$ 20 bilhões — das reservas internacionais, atualmente em US$ 382 bilhões. Ora, se é para tomar empréstimo pagando juros mais spread para cobrir rombo orçamentário, é melhor usar as reservas, na maior parte aplicada em títulos do Tesouro dos EUA e que rendem l,5% a.a.

Dirão que usar reservas para cobrir despesas correntes é um absurdo – no que eu concordo – mas, pelo menos, poderia ser introduzida uma salvaguarda de que os recursos daí decorrentes seriam aplicados exclusivamente em educação e saúde e áreas sociais e, quem sabe, na infraestrutura, se sobrar algum dinheiro.

Não acredito que o atual governo tome uma medida tão ousada, mas o que fará o próximo presidente?

Claudia Bozzo
A segunda temporada de “The Crown”, que já está no Netflix é uma preciosidade. Mais que um berilo, nome de um de seus melhores episódios, “Beryl”, todos os atores desempenham com excelência seu principal papel – o de comprovar que o Reino Unido é o berço da melhor dramaturgia.

A começar pela atriz que interpreta os dez primeiros anos – dos 65 recém-completados – da rainha Elizabeth II no trono, Clare Foy. Jovem, ela está no momento envolvida em outros quatro projetos e seu currículo inclui filmes, séries de TV e peças de teatro desde 2008, incluindo o papel de Ana Bolena na série “Wolf Hall”, também no Netflix e faz parte do elenco de várias outras séries e do ótimo “A Senhora da Van” de 2015, ao lado de David Jennings, que interpreta o rei – tio de Elizabeth – que não quis a coroa e tornou-se o Duque de Windsor. Na próxima temporada será substituída por Olívia Colman (que está em “Assassinato no Expresso Oriente”, em cartaz, como acompanhante de Judi Dench). Ela também trabalhou na série “Broadchurch”, exibida pelo GNT.

Além dela Matt Smith, excelente no papel de Philip, será substituído – mesmo porque ambos são jovens para interpretar os próximos anos da rainha e seu marido – mas o Netflix ainda não revelou qual o próximo ator. Smith foi o penúltimo “Dr. Who”, a série apresentada desde 2005, mas com episódios aqui e ali que a levaram a completar 50 anos na telinha. Ele também é o protagonista em um filme biográfico sobre o polêmico fotógrafo Robert Mapplethorpe, em fase de edição.

A série “The Crown” é densa, irreverente, bem escrita e irreverente de uma forma que até surpreende, ao revelar uma pesquisa histórica e um compromisso elogiável com a realidade, com os fatos que envolveram uma delicada fase da história britânica, após a Segunda Guerra. Nada é deixado de lado, nem mesmo questões delicadas com certas ligações com o nazismo, ou escândalos como o que envolveu John Profumo, político que escalou as mais altas hierarquias do governo britânico.

Também não são poupados os primeiros-ministros que vieram depois de Winston Churchill, como Anthony Eden (1955-1957), no cargo durante dois anos, e que enfrentou a difícil situação de nacionalização do Canal de Suez, decretada pelo presidente egípcio, Gamal Abdel Nasser. Foi substituído por Harold Macmillan, que ficou no cargo de 1957 a 1963. O fraco desempenho de ambos custou à Inglaterra o chamado “capital moral” conquistado com a vitória contra o Eixo, na Segunda Guerra.

“The Crown” traz o relacionamento da rainha Elizabeth com seus primeiros-ministros, família, conhecidos, em detalhes que revelam o rigor da pesquisa histórica feita pela produção dessa que é a mais cara série já feita.

Essa segunda temporada começa pela viagem de cinco meses do Duque de Edimburgo – Philip ainda não era príncipe – por países da Commonwealth – e registra os efeitos emocionais do distanciamento.

Quando terminam os episódios dessa segunda temporada, a grande pergunta é: como eles conseguiram colocar tanta coisa, tantas informações, sentimentos e fatos, em tão curto espaço de tempo? E com tanta competência? E além disso, com um senso cinematográfico de alta competência.

O episódio “Beryl”, por exemplo, mostra como é sair de uma camisa-de-força. A rigidez e o senso de estoicismo que é são britanicamente entranhados, principalmente na família real britânica, encontram uma contestadora à altura, a princesa Margaret, interpretada pela bela Venssa Kirby. A princesa, a 11ª na linha de sucessão para o trono, mas a mais imperial de toda família, como se fica sabendo nas conversas entre as irmãs Elizabeth e Margaret, é um sopro de joie de vivre naquela rigidez cerimoniosa palaciana. E esse episódio marca o encontro de dois seres independentes, ela e o fotógrafo Tony Armstrong-Jones, papel entregue ao carismático Matthew Goode, que passou por “Downton Abbey” e também pela série americana “The Good Wife”.

Na comparação, “Downton Abbey” acaba mostrando-se uma espécie de romance de folhetim, meio descolado da realidade, bem alienado, digamos. Pois “The Crown” passa longe da frivolidade – talvez ela venha quando entrar em cena o período Diana. Mesmo porque, como retratar a princesa sem sua característica principal, a vaidade, o estrelismo e a frívola forma de encarar a vida?

É aguardar e ver. Muita coisa boa ainda está por chegar, se a segunda temporada se consolidar como a bússola dessa interessante série.

Dance

14 / 12 / 17

Heraldo Bighetti
Saudosistas da época dos filmes em preto e branco devem lembrar do prazer que era assistir Fred Astaire e Gene Kelly flutuando pelos sets de Hollywood. Acredito que era algo semelhante ao que senti quando assisti pela primeira vez o comercial do Tim Black. Intrigado fui buscar informações sobre quem era o dançarino, qual a música utilizada e sobre a coreografia fantástica. Bastou acessar a nossa memória coletiva (o Google) para saber que o rapaz era um fenômeno mundial. E, que em alguns países, ele virara um pop star. Sven Otten é o nome dele. Mas pode chamar de JustSomeMotion que ele prefere. Prefere também utilizar como trilha o gênero musical electro swing (ou neo swing), criado por um outro austríaco, Parov Stelar. Ou Marcus Füreder, seu nome de nascença.

Até o momento foram mais de 44 milhões de visualizações do clip que está no Youtube, colocado em 2013 e feito pelo Sven com a trilha All Night Long do Parov. Mas, por que viralizou?

Ken Robinson, o educador inglês e também um dos líderes em visualizações no TED tem uma possível explicação. A dança é uma das manifestações humanas da criatividade e também sua facilitadora. Sven criou um estilo de dança que mistura muitos estilos contemporâneos, transformando o corpo tão rígido e formal que habitamos em um contínuo de fluidez e leveza.
Parece que nos tornamos de novo crianças ao ver as quebras de movimento e torções inesperadas, loucos para tentar fazer igual. E é essa a proposta do JustSomeMotion: ensinar a dançar o estilo. A criatividade de Sven despertou em milhões de pessoas algo que havia sido esquecido, a própria criatividade.

Graças à publicidade, que utilizou dois de seus fundamentos: a inovação, para chamar a atenção; o personagem improvável de um dançarino solitário de chapéu. Assim, a linguagem criativa da dança retomou seu lugar como forma de comunicação, esquecida que estava na memória de cada um. Ou pior, censurada.

Infelizmente, a publicidade também impõe comerciais de gosto duvidoso e sem qualquer pertinência forma/mensagem/produto. A Avianca que se cuide com seu comercial estilo coreografia de programa de auditório. Mas é dança, vá lá.

Fecho, lembrando do Snoopy sobre sua casinha dançando alegremente e pensando: Dançar é viver.

Klaus Kleber
Um amigo que pretende viajar para o exterior no início de 2018 está muito preocupado com a alta recente da cotação do dólar, que fechou em R$ 3,295 (venda, no mercado comercial) na última sexta-feira, dia 8. Ele não sabe se compra as verdinhas agora ou se deixa para depois e me pergunta o que deve fazer.

Bem sei que qualquer palpite sobre câmbio é extremamente arriscado, mas para não deixar meu amigo sem resposta, disse a ele que a tendência é que a cotação do dólar continue subindo, mas não está excluída a hipótese de que o Banco Central (BC) volte a intervir no mercado se a cotação da moeda americana passar muito de R$ 3,30.

A subida do dólar nos últimos dias tem sido atribuída às difíceis negociações parlamentares para uma problemática aprovação da reforma da Previdência. Na minha opinião, a insistência dos operadores nesse tema é mais para inglês ver. Poder ser que se a reforma for aprovada ainda este ano, em primeira votação na Câmara, isso venha ter alguma influência, principalmente sobre a cotação das ações na Bolsa.

Quanto ao câmbio, o efeito é duvidoso e se houver repercussão pode ser somente a curtíssimo prazo. Independentemente de qualquer reforma, há quem diga que, com a decisão do Copom de baixar taxa básica de juros a 7% ao ano, podendo cair mais no princípio de 2018, há maior procura de dólar pelas empresas para fazer hedge (proteção).

O fato inconteste é que a moeda americana está se valorizando nos mercados internacionais. O noticiário dá conta de que o dólar subiu diante do euro e do iene na última semana com a divulgação da taxa de desemprego baixíssima nos EUA (4,1% em novembro, a uma taxa anualizada). Além disso, a aprovação pelo Senado do corte de impostos proposto por Trump também influi para reforçar a moeda americana. E. para completar, espera-se que, em sua reunião nesta semana (dias 13/14), o Federal Reserve (Fed) aumente a sua taxa de juros (benchmark).

Isso deve ser levado em consideração, mas não se deve esquecer que o câmbio flutuante, que seria um dos pilares da política econômica ortodoxa, nunca foi para valer no Brasil. Sendo assim, o BC pode intervir no mercado não só para conter pressões inflacionárias, mesmo com o INPC devendo fechar o ano abaixo de 3%.

Há outro fator. O BC não desconhece que muitas empresas brasileiras estão endividadas em dólar. Este não é só o caso da gigante Petrobrás. Segundo a Folha de S. Paulo (10/12), metade do endividamento das empresas brasileiras está concentrado em 57 companhias e 40% da dívida desse grupo é em dólar. Com o crédito interno trancado pelos bancos, as empresas foram buscar dinheiro lá fora e agora estão expostas a uma maior cotação do dólar. Algumas podem quebrar, se o BC deixar como está para ver como é que fica.

De acordo com essa lógica, não faltariam motivos para o BC intervir no mercado de câmbio, utilizando os surrados “swaps” cambiais.

Klaus Kleber
Enquanto o presidente Donald Trump dava vazão a seus preconceitos em suas tuitadas, isso podia nos causar repugnância, mas não nos afetava. Agora é diferente. O presidente dos EUA obteve a sua primeira vitória legislativa com a aprovação pelo Senado de sua proposta de corte de impostos. Os grandes beneficiários serão as grandes companhias e os ricos, cuja alíquota do imposto de renda (IR) cairá de 35% para cerca de 20%.

A classe média também é beneficiada, pelo menos no papel, uma vez que os contribuintes não poderão de deduzir seus impostos locais e estaduais de suas declarações do IR. Mas, demagogicamente, a coisa pode funcionar a favor dos republicanos.

A turma de Trump diz que, com a redução dos impostos, as empresas americanas investirão mais, criarão mais empregos e serão menos tentadas a se expandir no exterior. Pode ser, mas muitos economistas duvidam. Não faltam aqueles que preveem que, com a redução da arrecadação, o déficit público dos EUA, que já é calculado em US$ 20 trilhões, terá um aumento de US$ 1,4 trilhão nos próximos dez anos, e essa carga recairá sobre as mais novas gerações.

O que nos interessa é como o Federal Reserve Board (Fed) reagirá. Com o aquecimento da economia americana este ano, já era previsto um aumento da taxa básica de juros (benchmark – agora em 1,5% — m meados deste mês. Se não for elevada agora, os analistas projetam uma taxa de 2% no início de 2018.

Isso, por si só, levará a uma fuga de capitais para o mercado americano e terá repercussões nos mercados de todo o mundo. A questão é saber se depois do corte de impostos de Trump — que ainda precisa ser conciliado com proposta semelhante em tramitação na Câmara dos Representantes — qual será a política a ser adotada pela autoridade monetária americana.

É verdade que Trump, contrariando a expectativa, nomeou Jerome Powell como “chairman” do Fed no lugar de Janet Yellen. Não se sabe se Powell, que assume em 2018, é ou não adepto da política econômica expansionista patrocinada pelo presidente americano. Pelas previsões normais, o Fed teria de elevar ainda mais os juros se a cotações das ações na Bolsa de Nova York dispararem nos próximos meses.

Previsivelmente, menos aplicações financeiras e investimentos tendem a vir para o Brasil partindo de empresas e investidores americanos, abrindo ainda mais espaço para os investimentos da China e talvez da União Europeia (UE), se finalmente, o Mercosul conseguir firmar um acordo de livre comércio com o bloco europeu. Há uma chance de que isso ocorra também em meados de dezembro, durante reunião da Organização Mundial de Comércio (OMC) em Buenos Aires.

Em suma, este mês de festas começa com definições no campo externo que podem afetar diretamente a política econômica brasileira de 2018 em diante.

Claudia Bozzo
Como qualquer epidemia dos tempos modernos, as doenças viajam de continente por continente. Seja pelos meios de transporte ou pelos meios de comunicação. E a onda de denúncias de assédio sexual, inaugurada contra Harvey Weinstein, em tempos de internet e TV a cabo, chegou até a Nigéria, o terceiro – ou segundo, de acordo com a estatística que se consulta – maior produtor de filmes no mundo, depois da Índia (Bollywood) e Estados Unidos (Hollywood).

Conhecida como Nollywood, a indústria cinematográfica nigeriana foi notícia na semana passada pois em novembro, a atriz Eniola Omoshalewa Eunice enviou uma queixa ao Ministério dos Assuntos das Mulheres, que encaminha as denúncias à polícia. Ela acusou um comediante, Yomi Fabiyi (prêmio de melhor ator no Nollywood Awards de 2016) de tê-la chantageado, em 2008. “Ele me disse que teríamos que dormir juntos antes que ele pudesse transformar-me em uma estrela”, relata a atriz, em reportagem do jornal Le Monde.

Essa denúncia, porém, foi precedida por outra, um mês antes de vir à tona o caso Weinstein. Emeka Rollas Ejezie, presidente da Associação de Atores manifestou a intenção de travar uma guerra contra o assédio sexual em Nollywood, denúncia à qual até agora ninguém deu atenção.

Em seguida à denúncia de Eniola, veio outra acusação, contra um ator veterano de 57 anos, Yemi Solade. Os casos estão ainda na fase de inquérito policial. Um golpe sério para uma indústria que movimenta US$ 3,3 bilhões por ano e produz dezenas de filmes por semana.

Aqui cabe informar que essa produção é toda em vídeo, pois o pais tem poucos cinemas e 90% da produção é de home vídeos. Há mais de 15 mil videoclubes e locadoras no país e uma pirataria altamente disseminada. Calcula-se, por exemplo, que cada filme tenha uma venda de 25 mil cópias.

Com quase 160 milhões de habitantes, a Nigéria abriga vastos núcleos de pobreza e algumas ilhas de prosperidade, sendo um dos maiores produtores mundiais de petróleo, e integrando com outros 12 países a Opep. Além de petróleo o país tem gás natural, estanho, minério de ferro, nióbio, chumbo e zinco. Aderiu à ideia de criar uma “Opep do Cacau”, com Gana, Costa do Marfim, Camarões e Indonésia, países que juntos produzem 80% da oferta mundial de amêndoas.

Ele abriga outra versão de Nollywood, que reúne os filmes produzidos no idioma hausa, do norte do país, a Kannywood, onde se sabe que o fim da impunidade está longe. Lá a lei predominante é a do silêncio e a pressão sobre as atrizes sob o domínio muçulmano é poderosa. Mas uma atriz de 21 anos, Rahama Sadau denunciou a chantagem sexual e foi dispensada pelo diretor do filme. O caso acabou em pizza, após a intervenção da poderosa associação que controla a indústria cinematográfica hausa.

A história não acabou ai. Como observa o artigo do Le Monde, “na terra da sharia e do cinema, a culpa é da vítima” e a atriz acabou sendo banida das telas para sempre, acusada de ter “tocado” um homem em um vídeo romântico.

Alguns diretores contra-atacaram na Nigéria e a premiada diretora Mildred Okwo denunciou outro fenômeno, que chamou de “corrupção por sexo”, acusando atrizes de se oferecerem em troca de papeis. Não poupou ninguém: também se queixou da pressão exercida pelos produtores, querendo impor atrizes pelas quais se interessam.

A emergência de Nollywood aconteceu no fim dos anos 1980, coincidindo com uma crise econômica que privou os produtores do acesso aos custosos materiais para filmagem em película. Nessa época, um grupo yorubá de teatro itinerante gravava suas performances em VHS e as fitas eram vendidas em lojas de eletrônicos.

Um dia, o dono de uma dessas lojas escreveu e patrocinou um longa-metragem rodado inteiramente em VHS. O resultado, Living in Bondage (1992), foi o primeiro blockbuster de Nollywood, com mais de 750 mil cópias vendidas. Hoje, os filmes independentes continuam a ser rodados, com um número cada vez maior de lançamentos no cinema. O formato para vídeo permite que as produções sejam não só econômicas – com custo entre US$ 30 e US$ 200 mil –, mas também rápidas, com filmagens durando entre três e quatro semanas. O preço final de uma cópia sai entre US$ 1,5 e US$ 3, que são consumidas vorazmente por um público de milhares de pessoas espalhadas pelo continente africano e também pelos que emigraram.

Segundo um site de cinema africano, cerca de 40% da produção no país é em pidgin english, 35% em yorubá, 17,5% em hausa e os 7,5% restantes em outras línguas e dialetos locais. Embora a distribuição seja um grande gargalo, Nollywood também começa a conquistar espaço em outros países da África, com seus atores fazendo sucesso de Gana a Zâmbia.

Klaus Kleber
Fez bem a direção da Petrobrás em decidir pela abertura do capital da BR Distribuidora. A alternativa era a privatização da subsidiária mediante leilão ou compartilhamento do controle, o que poderia render mais de imediato aos cofres da estatal do petróleo, mas, nos dois casos, haveria o risco de formação de um oligopólio ou de desnacionalização. Já com a abertura do capital da BR Distribuidora, haverá dispersão de capital entre centenas ou milhares de acionistas, transformando a empresa em uma sociedade de economia mista, que pode, sim, vir a ser bem administrada, desde que adote critérios de governança corporativa.

Prevê-se uma oferta inicial de 25% das ações da Distribuidora, que pode ir a ser complementada com a venda de papeis adicionais, que elevaria a participação dos acionistas interessados a 33,75% do capital da empresa. Com o passar do tempo e dependendo das circunstâncias, a Petrobrás pode vender mais ações da BR e talvez alienar seu controle, presumindo que seja mantida a dispersão do capital, ou seja, a despersonalização da propriedade, acompanhando a tendência do capitalismo nos países mais desenvolvidos.

O preço inicial da oferta do papel da BR foi estipulado entre R$ 15 e R$ 19, esperando-se que renda, no máximo, R$ 7,5 bilhões à Petrobrás. Considerando que a dívida total da estatal é calculada em R$ 280 bilhões, o dinheiro que a BR trará para o caixa da estatal, por si só, não resolve. Mas, como deixou claro o próprio presidente da estatal, Pedro Parente, a estatal vai vender outros ativos para aliviar seu endividamento e cumprir a meta de se desfazer de bens no valor total de R$ 21 bilhões até o fim de 2018.

O mercado reagiu bem à decisão de abrir o capital da BR, A grande questão que fica é saber de a decisão da Petrobrás é apenas episódica ou se representaria uma retomada pelos responsáveis pela condução da política econômica da orientação que levou Banco do Brasil (BB) em 2013 a abrir o capital da BB Seguridade, recolhendo a seus cofres R$ 11,475 bilhões, em vez de simplesmente privatizar a subsidiária.

Não se deve uma resposta definitiva quanto a isso no atual governo. No próximo, porém, esse tema vai se colocar. Fala-se, por exemplo, em “privatizar” a Caixa Econômica Federal. Dada a concentração bancária hoje existente, não faria sentido vendê-la para os grandes instituições nacionais ou para bancos do exterior. A abertura do capital poderia ser a solução ideal.

Voltaremos ao assunto.