fev 18

Claudia Bozzo
É na Netflix, de novo, que o melhor encontrou sua casa. Trata-se da extraordinária série “Peaky Blinders”, originalmente apresentada pela BBC. São cinco temporadas, quatro delas já disponíveis no serviço de streaming, divididas em seis episódios cada uma, trazendo um elenco de primeiríssima linha, que tem como protagonista o ótimo Cillian Murphy (como é irlandês, seu nome se pronuncia ‘Quilian’), que todo mundo já viu em algum filme. Ele está em “Dunkirk” (2017), “Café da Manhã em Plutão”, de Neil Jordan (2005), “Ventos da Liberdade” de Ken Loach (2006), em vários blockbusters ou em outros filmes de fino trato. Nesta série seu desempenho é impecável, marcante e traça para ele um caminho irreversível de grande sucesso.

O centro de tudo em “Peaky Blinders”, uma história real sobre uma família de gângsters que controlava corridas de cavalo na rica Birminghan, a segunda maior cidade do Reino Unido é Thomas Shelby (Cillian), o grande articulador dos “negócios da família”. Ele tem como principais colaboradores os três irmãos, com destaque para Arthur (Paul Anderson), figura instável, mas de uma fidelidade e lealdade comoventes.

Embora centrada em Birminghan, a série precisou ser rodada em cidades como Manchester, por exemplo, pois a reurbanização acabou com as áreas mais pobres da cidade.

Conta a história da Inglaterra no sensível período após o final da primeira guerra, e foi criada por Steven Knight, roteirista que deixou sua marca em “Coisa Belas e Sujas” (2002) e na série “Taboo” (2017), estrelada por Tom Hardy. Escreveu cada um dos capítulos apresentados. Knight cresceu em Birmingham e lembra-se do que seus parentes contavam a respeito da quadrilha. Seu pai tinha uns dez anos na época. O nome “Peaky Blinders” vem das lâminas que eles usavam em seus bonés, e em brigas eram usadas para cegar os oponentes com o sangue jorrado da testa deles.

O elenco inclui Sam Neill como o policial especialmente enviado pelo então secretário do Interior, Winston Churchill, para dar um fim à criminalidade na região e investigar as ligações entre o crime organizado, o IRA e movimentos sindicais. Mas tem mais: a ótima Helen McCrory como a tia Polly, Tom Hardy, Paddy Considine, Adrien Brody, Aidan Gilen, Sophie Rundle.

É uma superprodução, e segundo alguns sites, cada episódio custou em média um milhão de libras. Bem gastas, pois o padrão BBC esbanja bom gosto e competência. A direção de arte é impecável, a reconstituição da época um exagero de bem-feita e a trilha sonora… um caso à parte. Embora o período seja o início do século vinte, o talento britânico encaixa perfeitamente por exemplo, Nick Cave & The Band Seeds, que estão na trilha de abertura, com “Red Hand”. Há Radiohead, PJ Harvey e Royal Blood. Consegue-se identificar outros monstros sagrados, entre eles David Bowie, em uma canção de seu último álbum: o episódio foi gravado logo após a morte do compositor. “Look up here, I’m in Heaven…”

A série tem uma aprovação de 96% (entre leitores e críticos) no site Rotten Tomatoes, cujo “tomatômetro” revela 100% de aprovação para as temporadas 2 e 3, marca bem difícil de ser alcançada. Já está sendo comparada às melhores de todos os tempos, como “The Wire”, “Sopranos” e “Boardwalk Empire”.

Seu ponto forte é a história. Com H maiúsculo. O formato de série permite o aprofundamento de vários temas, entre eles a ascensão das mulheres, a luta por igualdade salarial, a rigidez das estruturas sociais na sociedade britânica, uma vez que por mais ricos e por mais que “diversifiquem” seus negócios e áreas de atuação, os “Peaky Blinders” sempre serão considerados um bando de ciganos pela elite. Mesmo que comecem a lavar seu dinheiro e criar negócios “limpos”.

Em uma entrevista, Knight já adiantou que a última temporada termina com “sirenes anunciando o primeiro ataque aéreo da Segunda Guerra”. Bom, Netflix, que tal legendar e trazer para nossas telas essa preciosidade que tantos outros países já viram? E gostaram.

written by Leonardo Trevisan


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